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Dionisio Machado: o homem e sua obra (In Memoriam) – Por Valdivino Braz

Nunca será demais destacar o escritor Dionisio Machado e o conjunto de sua obra literária, abrangendo romances, contos, poemas e infanto-juvenil, este sob o título Horácio, o sapo que voava. De foro íntimo, Dionisio subscrevia sua “luta em nome das Letras”. Ele sabia de si no ofício de fazer ou criar. Chegou a Goiânia sonhando ser escritor. Foi serralheiro, inclusive montando esculturas de renomadas artistas plásticas em Goiânia. Mais tarde, tornou-se funcionário da Comurg, de limpeza urbana. Em casa, lia muito literatura brasileira. Fomos juntos a Vitória, no Espírito Santo, fazer provas do Supletivo, então nos conhecemos e nos tornamos amigos.

Fui cursar Jornalismo e me formei, e Dionísio cursou Direito e se formou advogado; tornou-se professor e por fim Procurador do Município de Goiânia, atuando no Paço Municipal. Fez muitos e bons amigos, mas também, e sempre se queixou, sofreu perseguições de chefetes “metidos a besta” (ele dizia), na Comurg e no próprio Paço Municipal. Mas ele venceu a tudo e a todos, e preservou no coração os bons amigos. Para nós, particularmente, foi uma honra conhecê-lo e tê-lo como um dileto amigo.

De passagem, apenas para constar, Dionísio até chamava atenção para a grafia de seu prenome Dionisio, que não leva (ou não levava) acento grave no segundo “i”. Não obstante, algumas de suas obras hoje trazem nesse “i” o referido acento grave.

Prefaciamos seu romance Faúlhas (Prêmio Bolsa Hugo de Carvalho Ramos, de 2002), que reputamos entre os melhores de seus 21 primeiros livros, agora totalizando 23, com estes Benzedor de cobras (contos) e este romance Cacumbú, termo referente a coisa sem préstimo — regionalmente, machado ou enxada já gastos, por exemplo. E acreditamos que Dionísio tenha deixado inédito pelo menos mais um livro de sua lavra.

No prefácio ao Faúlhas, salientamos que Dionísio retrata a saga tecnotrágica do camponês empurrado à força para o inferno urbano, com a marca de uma modernidade amiúde nefasta. Nas orelhas de Faulhas, o escritor e professor universitário Lázaro Faleiro afirma, elogiosamente, que Dionísio Machado é “um amoroso da terra, um bicho do mato no trato com as palavras; todo ele é terra intacta e pura, e é também um escritor moderno.” Faleiros ressalta a “veemência fustigante da fantasia deste mago da palavra”.

Faúlhas é dedicado aos urubus, figuras emblemáticas neste romance, que o autor Dionísio tinha como companheiros cismáticos de sua infância. A dedicatória se estende aos indígenas do Brasil e do mundo, especialmente os Karajá, mencionados como irmãos de sangue, uma vez que Dionísio era descendente de uma avoenga figura dessa nação indígena. A dedicatória de Dionísio abrange, amorosamente, sua companheira Terezinha (sua “meeira”, ele diz) e as filhas Farley, Felícia e Fabrícia.

Chamamos atenção para o rol de titulações temáticas das obras de Dionísio Machado, que podem ser conferidas no final de Cacumbú. O autor criava títulos chamativos, dentre eles, em parte premiados, citamos as coletâneas de contos: Caraíbas, flor e sangue; Caminhos do vento; Epaminondas sem cabeça; e Raimundo pedal de sangue e osso. De poemas, o lirismo dos títulos Na vidraça dos olhos, Na trilha da saudade e Avenida que já foi estrada.

Este romance Cacumbú, a par ainda com a temática do camponês retirante, em êxodo, e desta feita para Goiânia, o autor vergasta verbalmente, inclusive, a corrupção política e os maus procedimentos das elites dominantes. No prefácio desta obra, o professor Mário Jorge Bechepeche sublinha a loquacidade sutil de Dionísio, bem como sua argúcia e habilidade na retratação dos tipos ou personagens. Segundo o mestre Bechepeche, a obra de Dionisio Machado é um patrimônio de excelência da mais representativa na Literatura Brasileira.

Vasta é a obra dionisiana, que nunca mereceu da crítica local, dita abalizada, sequer um olhar mais acurado. Sem aqui generalizar, há uma patota de críticos literários que mais parece uma capitania hereditária, fisiológica, trocando figurinhas entre si e afagos no ego, além de um viciado critério de favorecimento na adoção de obras literárias no vestibular das universidades; e quase sempre obras da mesma patota, em detrimento de outros escritores que vão surgindo.

Dionísio começou sua carreira com um conto intitulado “A escada cinzenta”, em 1970, narrando a revolta de um usuário do INAMPS numa fila para atendimento. Seu conto foi censurado por agentes do famigerado AI-5, nos “anos de chumbo”. Confiscaram o texto e ainda processaram seu autor como subversivo. Pois Dionísio refez o texto e tentou publicá-lo em um conhecido jornal de Goiânia (soubemos agora que teria sido a extinta Folha de Goiaz, com “z”). Segundo contava Dionisio, o então editor do jornal, “zeloso de seu pasquim”, pegou o texto, leu, rasgou e jogou no cesto de lixo, dizendo: “Eis o que faço do seu conto, que é uma merda.”

Com essas e outras, Dionísio Machado foi avante em sua “luta em nome das Letras”. Mais adiante, em 1975, publicou seu primeiro livro, Terra da gente, pela editora dos irmãos José (o Zezinho) e Taylor Oriente. Conquistou diversas premiações, inclusive o Troféu Tiokô para Literatura, pela União Brasileira de Escritores – Seção de Goiás; e Troféu Leodegária de Jesus, da Academia Goiana de Letras. E hoje aqui realiza-se o lançamento destes dois novos livros seus. Aí mesmo, por escrito, Dionísio deixa um recado: “Amigas e amigos, senhoras e senhores presentes, está cumprida minha missão. Deus seja louvado! Ah, como dói a despedida!”

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Valdivino Braz é jornalista aposentado, escritor e membro da União Brasileira de Escritores (UBE-GO).